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sábado, 17 de maio de 2008

COLETÂNEA DE ARTIGOS SOBRE O CASO ISABELLA NARDONI

Nas últimas semanas escrevi alguns artigos para o jornal O Popular, de Goiânia (GO), que, de uma maneira ou de outra, tangenciam o caso Isabella Nardoni. Como o assunto ainda interessa a muitas pessoas, preparei aqui uma coletânea destes artigos.

Segue-se um breve resumo do assunto de cada um deles:

* A beleza acorrentada e torturada (19/03) - a mente dos que praticam violência contra crianças

* Foi o remédio. Ou a falta dele... (16/04) - a mania de se usar transtornos mentais como desculpa para os crimes

* Isabella Nardoni e O Eterno Retorno (29/04) - a falsa sensação de que a violência está aumentando

* O caso da garota... Ariana Toledo (16/05) - como os escândalos caem no esquecimento

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sexta-feira, 16 de maio de 2008

O CASO DA GAROTA... ARIANA TOLEDO

(Artigo publicado no jornal O Popular de 16/05/08.)

Não gosto muito de jornais. Se algo é notícia, é porque foge do esperado, caso a sociedade funcionasse harmonicamente. Ou seja, a notícia tem alguma relevância, enquanto fato. Mas geralmente o jornal faz com que a relevância acabe no próprio fato, pois fatos novos substituem os antigos sem que os antigos tenham gerado alguma reflexão mais profunda. Talvez seja mesmo por causa desta falta de reflexão que quase nada mude, e tantos fatos fora da normalidade esperada continuem a ocorrer.

Este caráter efêmero dos fatos não é culpa dos jornalistas nem do “dono do jornal”. Jornais assim são porque assim querem os leitores, que não querem ler uma tese de mestrado por dia. Nem eu. Mas a rapidez com que as notícias se sucedem também me incomoda um pouco. Por isto gosto destas páginas de Opinião, um gancho entre o que foge tão rápido e o que merece ficar um pouco mais.

Uma notícia, por si só, não tem valor nenhum, pois provavelmente algo parecido já aconteceu antes e algo parecido voltará a ocorrer. Desta forma, em meus artigos uso o “fato do dia” apenas como isca, tentando aprofundar o pensamento não sobre aquele fato em si, mas sobre todos fatos semelhantes àquele, incluindo os passados e os futuros.

Assim, o caso da garota Isabella não tem importância quase nenhuma para a história. Coisas piores já aconteceram e acontecerão. O mais incomum nesse imbróglio todo, a meu ver, é a aglomeração de pessoas em fúria na porta de qualquer lugar em que o casal acusado se encontre.

O crime em si é relativamente comum. Uma pequena nota no jornal do dia 14 de maio, por exemplo, falava da condenação de uma mãe que em 2006 matou, a facadas, seus dois filhos, uma menina de 4 anos (a Ariana do título) e um bebê de 6 meses, tudo isto porque “não agüentava mais as constantes brigas com o companheiro”. (As pequenas notícias sempre são mais importantes, repare isso.)
Incomum é o linchamento, em grandes capitais. Se não houvesse a proteção policial, talvez o casal tivesse sido assassinado pela multidão. Isso realmente me intriga, entender porque, neste caso específico, a situação chegou a esse ponto, e no caso da garota Ariana não.

Será que o próprio fato de haver proteção policial seria um fator a incitar não apenas a presença do “público” como a sua agressividade? Tipo: “Me segura para eu não brigar...”

Não tenho respostas para isso. Talvez nem tempo para pensar. Nem espaço para escrever. Fim.

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quarta-feira, 19 de março de 2008

A BELEZA ACORRENTADA E TORTURADA

(Artigo publicado no jornal O Popular de 19/03/08.)

No início dos anos 70, um psicólogo (Philip Zimbardo) idealizou uma experiência, para a qual convidou jovens universitários “comuns”. Dividiu-os em dois grupos, uns seriam os guardas e outros os prisioneiros, mantidos em celas. E incentivou os “guardas” a terem um comportamento autoritário. O estudo deveria durar duas semanas. Teve que ser interrompido no sexto dia: os “guardas” haviam tornado-se sádicos, abusando fisicamente e psicologicamente daqueles “prisioneiros” que, alguns dias antes, eram colegas com os quais cruzavam diariamente pelo câmpus. Jovens antes pacíficos, com um pouco de liberdade e estímulo tornam-se perversos. De onde vem o Mal?

O caso, recentemente descoberto, da garota de 12 anos supostamente acorrentada e torturada pela própria mãe (pela própria mãe!) adotiva abre um leque de discussões, como a da política de adoções. Mas reflitamos sobre o Mal, independentemente da culpa ou não desta mãe acusada.

O ser humano é um bicho estranho. Inventou as roupas, o papel higiênico com cheiro de pêssego e o pudor, todas estas coisas que nos elevam sobre os animais. Mas a tortura, ah, essa também só um humano é capaz de planejar, de engrendar, de se satisfazer com ela.

Nada parece ser capaz de deter o Mal. Justiça rápida e eficaz, punições severas? Se isso bastasse, os Estados Unidos não seriam o país com mais serial killers no mundo. Religião? Os padres pedófilos, em contato diário com a palavra de Deus, não foram contidos por ela. O Mal está no meio de nós. Que atire a primeira pedra aquele que nunca teve vontade de torturar um torturador desses. Opa, não atire a pedra, ou você também será um de nós!

Sádicos (estupradores, assassinos) freqüentemente relatam que o prazer que sentem ao ver a dor de alguém é comparável a “sentir-se como Deus”. Uma visão bem distorcida do conceito tradicional de Deus, por certo! “A realidade humana é puro empenho para fazer-se Deus”, disse o filósofo francês Jean-Paul Sartre.

Esta necessidade de poder pode ser canalizada de diversas formas. Umas mais aceitas culturalmente, como a do homem que não sossegou até ser eleito e re-eleito presidente do país. Outras mais trágicas, como o velho tirano que só consegue “possuir” uma jovem garota se a acorrentar.

Crimes passionais. Pais que agridem filhos que fogem de suas rédeas. Podemos, com algum esforço, ver certo tipo de violência como necessidade de amor, de reconhecimento. Carência gerando violência. Mas a violência não gerará amor no agredido, só raiva, desprezo pelo agressor. Que se sentirá ainda mais solitário e vil. Esta será sua maior punição, e virá de suas próprias e pesadas mãos.

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